Arquivo de Março, 2010

qual estória 1

05/03/2010

Era Ângelo que associava que o chamassem. Mesmo provinciano, Ângelo gozava quando os seus da sua cidade chamavam o nome. Porque amava aquela mistura fantástica que se dizia entre o campo e os prédios. Como se os vivesse, os mesmos sítios, às mesmas horas. Dizia acreditando, uma enxada capaz de abalar centenas de degraus daqueles das escadas rolantes. E assim dizendo, fazendo os dissidia.

Nunca tive muitas certezas às quantidades de tempos por que Ângelo passara. Faziam-me sempre confusão os ditados de velho que ensinava, com no seu meio as morais mais revolucionárias que ouvi até hoje. Como se um burro velho ensinasse um bezerro a ladrar, a zumbir, a miar, a urrar, a piar, e a mugir também. E como tal, não sei dizer idades de Ângelo.

Quem eu na cidade sabia de mais velho, não lembrava altura em que não conhecesse de Ângelo, assim concluí eu que ele sempre lá estivera, conhecido ou não por quem apenas de vista o entendia.

Por cima de todas as profissões que era, Ângelo consentia-se estudante de comunicação. Estudava comunicação por tantas horas que passava nas ruas da sua cidade a observar as pessoas que por elas passavam. Escrevia notas em papel que comunicavam música que ia observando. E dos sons que escrevia, era a procura dos dissonantes que o saciava. Saciava-o a dissonância que nunca encontrava, naquela cidade construída sem fendas, erguida por mãos de máquinas que eram guindastes, e que produzia pessoas iguais. À cidade, e aos guindastes. E se era na identidade que Ângelo se revia, não fazia no seu estudo sentido o que a cidade cantava, e que ele escrevia.

Ângelo era um filho da puta, e certo dia não apareceu mais no café onde sempre ensinava alguém a contestar. Deixou a cidade e partiu sozinho para o seu, só seu, campo, onde viveu feliz para sempre.

o antigo

05/03/2010

Podia ter feito o que quisesse. Mas apeteceu-me fumar um charuto. Janela virada a norte abro-a e debruço-me sobre um pouco mato que ainda assim me inspira o ar da natureza. Acendo o charuto e imagino-me na personagem h.d.t. a escrever o seu livro. Numa comparação distante, o lago dele tento senti-lo no meu pouco de mato. Sim senão dou em doido a pensar em felicidade. Achar ficar porque posso mudar a civilização é mais uma desculpa para não rescindir com ela. E se ainda assim achar ficar, então que não seja para ficar a admirar as tramas do primeiro bago de trigo que viajou pelo atlântico, ou sem atlântico as pirâmides azteco-egipcias, ou os documentos sem historia que fizeram e fazem historia, ou ate mesmo porque se a abobada não caiu, mestre de aviz morreu na mesma, peco desculpa ao mestre que morreu por causa da abobada por não me lembrar do seu nome e ao de aviz por o ter personificado. Tudo teorias da conspiracao para quem de certo esfrega os olhos à procura de algum pedaço sem poeira.

Perceber em vez de rejeitar, trouxe-me à vida talvez mais de cem mil novas maneiras de viver, sem que contudo lhe chame outro nome, à vida. E se posso dizer que o percebo, não o posso dizer percebido, porque nunca lá estive, porque nunca o tive, o walden.

A janela que me enquadra já não é janela, não passa de um conjunto de quatro forças exercidas por uma parede amarrada com um domino que serviu de bunker à WWI, mas que ainda assim não se deixa empurrar por nenhuma força humana, que assume a estática como sua posição visual e física.

? Já lá vai – A Conclusão

05/03/2010

Notícias que cansam, por serem as mesmas, os olhos de todos os que as lêem à vossa excepção. Escritores. É imaturo o que se sente na leitura de notícias que se orgulham de serem e fazerem, é imatura a validade do que são e do que fazem.

O papel activista está desqualificado temporalmente. A rescisão que este assume é para com aquilo que é passado, ao invés do que acontece agora. Se querem lutar na actualidade, as ferramentas com que o fazem têm de ser as mais actuais. Os princípios são os mesmos, descritos como Marx os idealizou, a revolução necessária é outra. A revolução tem de estar à frente do seu tempo, para que revolucione o tempo em que está.

Sujo pela inconstância, o homem pós-moderno atribui sem qualquer julgamento o significado não-sensacional à expressão mudança, tomando o seu significado de referência como mote nem feliz nem triste de toda a sua acção. Como mote.


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